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1. Eu sou o único
Walking
through a world of lies
With a heart made out of stone
I looked deep into my eyes
And I knew I was alone.2
Black
Flag, “I’m The One” (do álbum Jealous Again)
Pantera
mal reconhecia Laredo. Desde que a guerra tinha começado a piorar
para o lado da Confederação, aquela cidade de 1.300 habitantes,
que era só poeira e barracos de madeira, tinha virado uma metrópole
arenosa. Nas ruas abrasadas por um sol feroz, os sulistas em fuga tinham
trazido uma agitação grotesca, caricatura daquela vivida
nas cidades que foram forçados a abandonar. Damas em roupas espalhafatosas
e cavalheiros vestidos de branco, com bengala de passeio e tudo, ao lado
de mexicanos miseráveis e traficantes maltrapilhos que desde sempre
viviam na fronteira. Carruagens puxadas por puros-sangues passavam, beirando
a imensa extensão das jacals, as choupanas com paredes de barro
e teto de palha habitadas pelos nativos. Riqueza decaída e miséria
ancestral se fundiam numa aliança bizarra, só justificada
pela sensação de derrota que compartilhavam.
Pantera descia pela rua Iturbide, a artéria principal da cidade.
Haviam brotado por lá, em poucos meses, nada menos que 11 saloons
e quase outros tantos fandangos, lugares em que os pés-rapados
iam dançar e que não eram muito diferentes de um bordel.
O povo não representava um obstáculo para ele. O rifle Sharps
que empunhava, de precisão e com dois gatilhos, bastava para abrir
caminho. Mas, da parte dos transeuntes, era só uma questão
de prudência, não de medo. A chegada de tantos imigrantes
tinha tornado sem efeito o regulamento municipal de 1859, que proibia
o porte de armas. O que talvez deixasse alguns sulistas apreensivos era
o fato de verem um rifle nas mãos de um mexicano de pele escura.
No entanto, ninguém achava que fosse o caso de levantar objeções.
– Até que enfim o senhor chegou. – A voz do ranger
Casey, que saía da sombra da igreja de San Agustín, revelava
ansiedade. – Achou as balas de prata?
– Achei, mas é uma bobagem – respondeu Pantera, encolhendo
os ombros. – É um metal muito flexível. Não
perfura, e o projétil se deforma quando é disparado.
– Eu sei. Por isso precisa atirar de perto. Vem.
Pantera seguiu Casey sem retrucar. Alimentava certo respeito por aquele
homem corpulento de cabelos brancos, que havia quase um ano administrava
uma situação de emergência absolutamente imprevista.
Casey tinha chegado a Laredo acompanhando o major Mat Nolan, dos rangers
do Texas, para caçar mercenários nortistas, chamados de
enganchados. Depois permaneceu na cidade comandando o pequeno corpo de
vigilância criado pelo prefeito Salinas e o coronel Santos Benavides.
A posição ocupada pelo velho ranger não era fácil.
Qualquer oficialzinho confederado que passasse por Laredo com o uniforme
esfarrapado se sentia no direito de dar ordens a ele. Mas Casey, mesmo
tendo apenas cinco justiceiros sob seu comando, era firme e se esforçava
para que a lei de um governo enfraquecido e distante fosse respeitada.
– Estamos quase lá. Vai engatilhando – sussurrou o
ranger.
Pantera obedeceu. Passavam ao redor de um recinto onde alguns proprietários
sulistas tinham improvisado um mercado de escravos, só para ganhar
algum dinheiro e transpor com dignidade a fronteira. Os rostos atônitos
dos negros que, em pé sobre caixotes de madeira, eram objeto de
negociação revelavam a angústia pela peça
que o destino tinha pregado. Na maior parte dos casos, tendo que escolher,
acompanhavam o dono por vontade própria. Agora, seminus e molhados
de suor, eram exibidos a um pequeno grupo de pessoas que avaliava em dólares
cada qualidade física deles, dos dentes às dimensões
da genitália.
Pantera não estava disposto a ter pena deles: se havia um sentimento
que desprezava era o de fidelidade. Não o exigia nem dos animais.
Afinal, era exatamente um animal que ele teria que desentocar.
– Chegamos – disse Casey, ao se aproximar do saloon de Chavarría,
isolado numa clareira a dois passos do Rio Grande. – Antonio está
atrás do barril, embaixo da calha. Pedro Ybarbo deve estar no outro
lado do barraco. Mas o Diego está aí.
Pantera viu o mais encorpado dos três justiceiros aparecer por trás
da carcaça de uma carroça Conestoga atolada na areia e vir
ao encontro deles. Ele suava, e seus olhos escuros e tolos demonstravam
excitação.
– É ele, é o lobisomem – cochichou Diego Canales,
assim que se aproximou. Segurava firme um pesado Colt Walker, talvez uma
pequena lembrança da Guerra do Sal, em que lutara no lado contrário
ao de Pantera. – Ele matou a Carmen no fandango do Montoya e agora
está relaxando com uma cerveja. Mas não está sozinho.
Casey arqueou as sobrancelhas brancas. – Não está
sozinho?
– Não. Estão com ele uns seis ou sete homens armados.
Todos muito jovens, menos um. Usam roupas esquisitas, com penachos no
chapéu e fitas no casaco. Estrangeiros, sem dúvida.
– Enganchados, talvez?
– Acho que não, mas é melhor tomar cuidado. Devem
ter intimidade com as armas, senão não estariam carregando
um arsenal desses.
Casey apertou os olhos, dirigindo-os para o saloon. – Acho que seria
melhor entrar atirando. Acabar com eles antes que possam reagir. Claro,
temos o problema do lobisomem... – Olhou firme para Pantera.
Este passou o indicador da mão esquerda no cano do rifle. –
Certo. Dele cuido eu. Entro primeiro, sozinho, e tento chegar perto dele.
– É perigoso – observou Casey, mas dava para perceber
que a idéia o agradava.
– Eu sei, mas sou pago pra isso. Fique com o Antonio e o Pedro.
Eu vou entrar. Depois vocês vêm atrás de mim, assim
que ouvirem o disparo.
Pantera estava mais inquieto do que queria demonstrar. A preocupação
era a bala de prata. Temia que derretesse no cano. Decidiu que tentaria
atirar à queima-roupa na cabeça do lobisomem, se conseguisse
chegar perto dele. Atirar da porta, nem pensar, e o lugar não tinha
janelas.
Marchou diretamente para o saloon, escondendo o rifle embaixo do sobretudo
que usava, apesar do calor. Ajeitou também, com a mão esquerda,
o Colt Navy que levava na cintura. Sentiu uma segurança que o Sharps,
dada a munição com que estava carregado, não podia
dar.
Quando as portinholas do saloon chiaram e bateram, todos os presentes
se viraram na sua direção. Três pares de olhos mostravam
surpresa: os de duas prostitutas irlandesas, magras e de peitos caídos,
e os do velho Chavarría. Sete pares, por outro lado, demonstravam
desconfiança e hostilidade. Pertenciam todos a sujeitos de aspecto
bizarro, vestidos de um modo grotesco: roupas espalhafatosas, cordões,
espadins na cintura, gravatas pretas de laço, barba descuidada
(a de um deles era branca e chegava ao peito).
Um oitavo par de olhos, porém, revelava ódio em estado bruto.
À medida que se aproximava do balcão, sobre o qual havia
uma ampla tela em que figurava um cavaleiro espanhol inclinado sobre o
corpo nu de uma ninfa obesa, Pantera observava aquelas pupilas.
Pertenciam a um sujeito tão corpulento, que sua camisa vermelha
de caçador se esgarçava no peito e nas mangas. O rosto era
muito escuro, mas não por causa da pele. O motivo do escurecimento
era a pelagem dura que cobria e escondia completamente as bochechas. Além
disso, estava cheio de pústulas e manchas avermelhadas que pareciam
ser queimaduras. Sob o chapéu tosco que cobria sua cabeça,
despontavam duas orelhas tão pontudas que a aba chegava a dobrar.
Na boca, o homem tinha um charuto apagado, e o abdômen rijo sustentava
os cinturões cruzados de duas pistolas nos coldres, como é
moda entre os dândis do Norte, os veados de Santa Fé e os
bandidos de Nuevo Laredo, do outro lado do Rio Grande.
Era o lobisomem, sem dúvida. – Dá pra me servir uma
cerveja? – Pantera perguntou a Chavarría, enquanto continuava
olhando disfarçadamente o estrangeiro.
As mãos do velho garçom tremiam ao agarrar um copo e procurar
uma garrafa de Glueck dentro de um balde de gelo. Enquanto isso, Pantera
pensava na melhor forma de apagar o lobisomem a uma distância conveniente.
Mas não teve tempo para concluir seu raciocínio. O copo
já estava cheio de espuma até a metade quando a porta do
saloon bateu novamente. O cano de um fuzil disparou um tiro na direção
de Pantera e logo em seguida foi recolhido. Outros disparos penetraram
a madeira da parede em vários pontos.
Pantera ouviu a bala assobiar perto de seu ouvido e estourar uma garrafa
de uísque na estante, atrás do balcão, exatamente
à sua frente. Virou-se de repente, puxou o rifle para fora do sobretudo
e engatilhou. Não viu ninguém em quem pudesse atirar. Todos
tinham se deitado no chão, num escarcéu de mesas empurradas
com fúria e cadeiras reviradas. As prostitutas gritavam. Outras
balas perfuravam as paredes.
O homem de barba branca, deitado no assoalho com o Colt em punho, gritou:
– Precisamos sair! Chegar até os cavalos!
Uma exclamação aterrorizante do garçom, agachado
atrás do balcão, confirmou a conveniência do apelo:
– Fumaça! Querem pôr fogo no meu saloon!
Nesse momento, Pantera podia tranqüilamente atirar no lobisomem,
que estava ajoelhado perto de um barril de gim. Mas nem chegou a pensar
nisso. Estava transtornado e confuso, ainda que atento. O primeiro disparo
do fuzil, sem dúvida, fora endereçado a ele. Casey e seus
homens, sabe-se lá por quê, tinham decidido acabar com ele.
Naquele momento, portanto, eles eram a prioridade.
Outros dois disparos foram bem-sucedidos, enquanto num lado do bar línguas
de fogo apareciam entre as frestas das vigas. Uma das prostitutas, atingida
bem na testa quando, deitada no chão, se apoiou sobre os cotovelos,
reclinou a cabeça sobre uma poça de sangue. A segunda bala
atravessou a parede e resvalou no ombro do lobisomem, sem feri-lo.
Pantera correu para a porta e saiu. Casey e Antonio atiravam de trás
de um bebedouro. Pedro, mais afastado e exposto, recarregava o fuzil perto
do recinto do mercado de escravos. Diego Canales se afastava correndo
de uma pilha de lenha em chamas, encostada ao lado esquerdo do saloon.
A aparição de Pantera foi recebida com três ou quatro
disparos imprecisos. O mexicano não se abalou. Apontou o Sharps
na direção de Pedro e apertou os dois gatilhos, um depois
do outro.
Faltou pouco para que o rifle explodisse em suas mãos. Por sorte,
a prata fundida foi expelida pela deflagração e caiu a alguns
metros dali. Pantera praguejou contra as crendices cristãs. Largou
o Sharps e se ajoelhou de cabeça baixa, sacando o Colt Navy do
cinto. Outras balas sibilavam sobre sua cabeça. Ergueu o revólver
com as duas mãos na direção de Diego, que estava
quase alcançando o bebedouro. Interrompeu o trajeto do justiceiro
ao abrir um buraco nas suas costas, entre os ombros. O homem se retorceu
e desabou, com o rosto enfiado na areia.
Pedro disparou seu fuzil, gesto imitado por Casey e Antonio. Pantera sentiu
uma espécie de mordida no couro cabeludo, e o sangue começou
a escorrer na direção de seus olhos. Os outros estavam distantes
e precisavam recarregar. Mas o Colt ainda tinha cinco balas. Levantou-se
e, ao mesmo tempo, avançou. Não cometeu o erro de atirar
precipitadamente, apesar do sangue e de uma ponta de dor que embaçavam
sua visão. Correu até perceber que os canos dos fuzis se
levantavam de novo. Só então esvaziou o carregador, sem
se preocupar com a pontaria. Ouviu um grito rouco, mas não identificou
quem tinha atingido.
Outros estampidos ecoaram atrás dele. Intuiu confusamente que os
sujeitos do saloon deviam ter saído e estavam abrindo fogo. Seus
ouvidos zuniam, e ele mal conseguia se agüentar em pé. –
Os cavalos! Os cavalos! – alguém gritava. A prostituta sobrevivente,
que também estava do lado de fora, esgoelava-se até não
poder mais.
Em seguida, sua consciência ficou enevoada, como se sonhasse. Devia
ter caído, mas braços fortes o levantaram, enquanto ainda
se ouviam os disparos. O tiroteio se misturava a relinchos e batidas de
cascos, enquanto sua boca se enchia do gosto desagradável e pegajoso
de poeira. Depois todas as sensações se dissiparam, exceto
uma sombra de dor.
Acordou uma primeira vez e se viu com o rosto encostado à pelagem
dura e fétida de um cavalo ofegante. Aquele lampejo de consciência
durou pouco e foi seguido de uma espécie de sono angustiado. Quando
despertou novamente, a dor de cabeça tinha diminuído. Estava
numa clareira, com uma fogueira ardente que feria seus olhos. Era noite.
Um vento leve e fresco se esforçava para dispersar o calor do dia.
Ao seu redor, pessoas conversavam.
Tomou o cuidado de não mostrar que estava consciente. Fechou rapidamente
os olhos e tentou recuperar a audição, vencendo um zunido
persistente. Sentia-se lúcido, mas era uma lucidez febril.
As vozes, todas masculinas, exceto uma, eram um tanto rudes e exaltadas.
– A mulher é útil, o outro sujeito, não. Não
entendo por que o trouxemos.
– Sou útil em que sentido? – A voz feminina, interrompida
por soluços, estava no limite da histeria.
– Você sabe muito bem qual é a utilidade das mulheres.
Não estou falando das senhoras, mas das pecadoras contumazes, marcadas
por Satanás.
– Mas essa aí é feia. – Quem tinha pronunciado
essa frase era certamente um velho, talvez o homem de barba branca.
– Não é esse o problema. O problema é o outro
sujeito. Frank, por que você o salvou?
– Foi ele que nos salvou. Não sei quem é, mas tem
fibra. Precisamos de gente assim.
– Ele tem a cara escura. Deve ser mexicano, mas parece crioulo.
– Dessa vez, o timbre era fraco e inseguro, ainda que a voz expressasse
a mesma dureza das outras.
– Melhor ainda. Se ele não convencer, podemos vendê-lo
como escravo no Kansas. Só sei que o ranger parecia mais interessado
em acabar com ele do que com a gente. Acho que ele está do nosso
lado. Por isso eu o carreguei no meu cavalo.
– Besteira. Eles estavam atrás de mim.
Desta vez Pantera não pôde deixar de abrir os olhos. Não
havia dúvida. O sujeito que tinha falado, com um sotaque tão
gutural que o tornava ininteligível, era o lobisomem de Laredo.
O assassino de Carmen e de pelo menos duas outras garotas nos fandangos.
Aquele que o mexicano tinha sido pago para matar, quando Casey ainda o
tratava como amigo, e a cidade inteira, inclusive padres e pastores, mostrava
respeito pelo palo mayombe.
– Vejam só! Ele acordou! – murmurou alguém que
Pantera não conseguia ver.
A voz do velho barbudo não contestou aquela observação.
– É claro que queriam você, depois do que fez com aquelas
mulheres. Mas queriam este sujeito também. Antes de decidir o que
fazer com ele, precisamos entender por quê, e talvez saber seu nome.
– O nome eu sei. – Outra vez, era o lobisomem quem falava,
tentando controlar as ressonâncias desafinadas e guturais da própria
voz. – Ele se chama Pantera. É um bruxo mexicano, mas também
é matador de aluguel. Ele é chamado quando os sacerdotes
cristãos não sabem o que fazer. Como no meu caso.
Pantera estremeceu. Um rosto de menino, emoldurado por uma vasta cabeleira
loura, curvou-se sobre ele. – Bruxo? Veja só... Você
aí, consegue falar?
– Consigo. – Agora não adiantava mais fingir. –
Quem são vocês?
– Não é da sua conta. Mas meu nome é Jesse.
Todos se aproximaram. Pantera se ergueu sobre os cotovelos e sentou. A
cabeça doía, mas pouco. Levou a mão aos cabelos e
ficou fuçando, procurando a ferida. Só achou um pequeno
grumo pegajoso. Ao mesmo tempo, com a mão esquerda, apalpava disfarçadamente
o cinto. O Colt tinha sumido, mas isso ele já imaginava. Procurava,
na verdade, o pequeno Derringer Williamson de fogo circular, escondido
num bolso costurado embaixo da barra da calça. Também não
estava mais lá.
– Eles pagaram pra você me matar, não foi?
Pela primeira vez Pantera pôde ver o lobisomem por inteiro. Era
um colosso adolescente de rosto peludo, corroído por pústulas,
com pernas e bíceps impressionantes. Os olhos, pequenos e encovados,
pareciam ter as pupilas vermelhas, mas talvez fosse por causa do reflexo
da fogueira. Usava calças largas e franzidas, à mexicana,
botas amareladas, deformadas por seus pés descomunais e –
um detalhe bem estranho – luvas peludas insolitamente grandes. Não
exibia armas de fogo, apenas uma longa faca Bowie pendurada no flanco.
Diferentemente daquela manhã, vestia sobre a camisa de caçador
um paletó cinza do exército confederado, mas sem insígnias
ou distintivos.
Mentir seria suicídio. Pantera se limitou a medir as palavras.
– É. Eles me pagaram para matar você.
– Você é unionista? Um jayhawker?
– Não, sou um palero.
A voz do lobisomem se tornara menos gutural. Denotava até certo
entusiasmo quando anunciou aos companheiros: – É ele mesmo!
O famoso Pantera!
Os outros não pareciam impressionados. – Que diabo é
um palero? – perguntou o garoto louro.
Respondeu o sujeito um pouco mais velho que pouco antes chamaram de Frank.
O salvador de Pantera, ao que parecia. – É a magia dos negros,
Jesse. Você não deve conhecer. É praticada por alguns
escravos. Parece com a que chamam de santeria, mas é pior.
– E o que fazemos com um tipo desses?
Enquanto isso, Pantera raciocinava. A alusão aos jayhawkers, os
guerrilheiros nortistas que atuavam entre o Kansas e o Missouri, fizera
com que ele intuísse a identidade de seus captores. Se eram hostis
aos jayhawkers, só podiam ser soldados confederados, ou bushwhackers,
sulistas mercenários. A primeira hipótese devia ser descartada.
A segunda era confirmada pelos amplos bolsos recheados das camisas, certamente
de balas ou tambores já carregados. Além disso, eles tinham
armas moderníssimas, que a maior parte dos civis desconhecia, e
era evidente que as plumas e fitas simulavam uniformes fantasiosos. Mas
o que eles estavam fazendo tão ao sul? Talvez nem chegasse a saber.
Preparou-se para morrer, o que para ele era tão indiferente quanto
viver.
Mas foi exatamente o lobisomem quem o salvou. A voz do colosso novamente
se tornara rouca. – Eu quero esse bosta vivo. Quando voltar a Lua
cheia, vou ficar mal de novo, eu sei. O médico francês, com
toda aquela lábia, não conseguiu me curar. Quem sabe esse
aí não consegue fazer alguma coisa?
O velho de barba branca se aproximou. – Você está se
iludindo, Koger. Esse merda confirmou que foi pago para matar você.
Na primeira oportunidade, vai tentar outra vez.
– Quem pagou, depois traiu. Eles têm mais medo dele do que
de mim. Não, o Frank James está certo. É melhor ele
ir com a gente.
Os nervos de Pantera relaxaram, mas ele fez com que isso não transparecesse.
Levantou-se com alguma dificuldade. Alguns deles levaram a mão
à coronha das armas.
– Não tenham medo, vocês são muitos pra mim
– murmurou. Pela primeira vez, percebeu a presença de dois
homens amarrados e amordaçados, nos limites da clareira, mas fingiu
não ter notado. – Frank James falou bem. Quem me pagava na
verdade tinha bronca de mim. Não me perguntem por quê. Se
eu puder ser útil, vou com vocês.
– Calma, calma, mexicano – resmungou Frank. Devia ter uns
25 anos, mas o jeito sério e os olhos reflexivos faziam com que
parecesse mais maduro. – Parece que o Koger te conhece, mas nós
não. O fato de termos um inimigo em comum não faz de você
nosso amigo.
– Não pretendo ter sua amizade. Não tenho amigos.
Vivo sozinho.
Pantera intuiu que tinha dito uma verdade que transcendia a ocasião,
mas em geral não costumava perder tempo indagando sobre si mesmo,
especialmente num momento como aquele. Ficou esperando uma resposta, espiando
de vez em quando os dois homens amarrados. Finalmente o barbudo disse:
– Acho que são palavras honestas. Mas vamos ficar de olho
em você até pegarmos confiança. Agora está
na hora de dormir.
Um dos homens, um jovem bronco de barba manchada, aproximou-se da garota
irlandesa, que estava sentada com as mãos no colo, apática.
– Quem vai comer a puta esta noite?
Frank simulou um bocejo. – Estamos todos cansados demais, Maupin.
Vai você se tiver vontade. – Deu um passo na direção
de Pantera. – Alguém me passe uma corda. Confiar é
bom, desconfiar é melhor.
Pantera foi novamente posto de bruços na areia, com as mãos
fortemente amarradas nas costas. Achava que era impossível dormir
naquela posição, mas foi logo tomado pelo sono, apesar da
dor calada que dava sinais em sua cabeça, do ronco sonoro dos companheiros
e dos grunhidos distantes do brutamontes que se enlaçava no corpo
da prostituta.
Só despertou quando um raio de sol atingiu suas pálpebras.
Logo em seguida, a lâmina de uma faca liberou seus braços.
– Nada de gracinhas, certo? – sussurrou a voz calma e fria
de Frank. Dava para perceber que era um tipo sábio, mas pouco afeito
ao humor. – Seu direito de viver será avaliado de minuto
em minuto.
Assim que ficou em pé, Pantera percebeu que o pequeno acampamento,
agora inundado de luz, estava em plena atividade. Três homens, guiados
pelo velho de barba branca, conduziam um bom número de cavalos.
Koger, ainda mais colossal, mas menos descabelado, esquentava na brasa
da fogueira alguns pedaços de presunto ou bacon magro. Curiosamente,
tinha coberto a cabeça com o casaco de confederado, como se o sol
o incomodasse. A prostituta irlandesa, entre os arbustos, arrumava os
cabelos, que pareciam de estopa, com gestos mecânicos e nervosos,
e fitava com olhar vítreo o panorama ao redor. Os outros estavam
com a boca cheia de carne.
Oito homens ao todo, contou Pantera, além da mulher.
E dois mortos. Percebeu logo que os prisioneiros que vira de relance na
véspera tinham sido executados. Além disso, a carne esfolada
dos crânios e o sangue que escorria diziam tudo. Mortos e escalpelados.
Quando Pantera compreendeu os fatos, descobriu o que eram os fios louros
que despontavam dos bolsos de Koger, cada vez que ele se inclinava para
verificar o cozimento de suas iguarias.
Mortos e escalpelados. Ou talvez escalpelados e mortos, mas nesse caso
os gritos o teriam despertado. Não tinha mais dúvidas: os
homens ao seu redor eram bushwhackers. Em agosto do ano anterior, foi
muito alardeada a sangrenta pilhagem de Lawrence, comandada pelo mais
temido dos chefes rebeldes, William Clarke Quantrill. Naquela ocasião,
algumas vítimas tiveram o crânio esfolado, muitas vezes diante
da mulher e dos filhos. Desde então, a retirada do couro cabeludo,
velho hábito dos caçadores de índios, tinha se tornado
a punição infligida pelos guerrilheiros confederados aos
unionistas, mesmo em caso de simples suspeita.
Frank guiou Pantera até a fogueira e escolheu para ele um pedaço
de carne, que arrancou do espeto que Koger tinha acabado de tirar do fogo.
Estava pelando, mas era saborosa. Pantera mastigava cuidadosamente.
– Vou pegar um cavalo pra você – disse Frank. –
Vamos partir daqui a pouco.
Já era hora de fazer algumas perguntas. – Vocês são
homens do Quantrill?
– Quem, aquele canalha? – Frank mostrava uma indignação
sincera. – Não, nós seguimos com o Anderson. Gostamos
de matar nortistas. – Indicou com um sorriso malicioso os dois corpos
escalpelados.
Afastou-se sem dizer mais nada.
Meia hora depois, Pantera cavalgava no meio do grupo, montado num animal
de pêlo cinzento, dócil e robusto. Imaginou que devia ter
pertencido a um dos mortos, assim como o que levava a prostituta, sentada
de lado na sela. O jovem Jesse avançava na frente, segurando uma
vara com uma bandeirola de seda preta pregada na ponta. Maupin, um pouco
afastado, fechava o pelotão.
A paisagem alternava entre trechos desérticos e planos, salpicados
de cactos, e pequenas colinas em que uma vegetação pobre
conseguira vingar, sabe-se lá como. No céu não havia
nenhuma nuvem, e o sol fazia transpirar. O lobisomem, com toda aquela
pelagem, devia sofrer mais que todos, mas não demonstrava. Com
o corpanzil inclinado para a frente, encostava em sua montaria, um cavalo
preto, a ponto de parecerem um só animal de duas cabeças.
Mantinha o crânio sempre coberto. Avançavam num trote contínuo
para vencer o chão arenoso, que podia prender os cascos.
Pantera procurou, entre os que cavalgavam ao seu redor, alguém
que pudesse fornecer mais alguma informação. Identificou
o velho de barba enorme como o sujeito mais oportuno. Conduziu seu animal
até ele.
– Aquela bandeira é mesmo necessária? – perguntou
com ar distraído, apontando para o trapo preto.
O velho empurrou o chapéu para trás. – Segundo o Frank
James, é. Desde que o general Sterling Price promoveu Anderson
a tenente, todos nós pertencemos ao exército confederado.
E todo exército tem sua bandeira. – Disse isso tudo com certo
orgulho, mas, prevendo uma objeção, apressou-se em acrescentar:
– É, a nossa é negra, mas não quer dizer nada.
Só significa que estamos enquadrados nas fileiras.
– Nunca ouvi falar desse Anderson. Quem é ele?
O velho olhou surpreso para Pantera e depois sacudiu a cabeça.
– Dá pra ver que você é do Texas. Do Kansas
ao Missouri, todos conhecem Bloody Bill Anderson. Ele estava em Lawrence
com o Quantrill. Foi ele quem fez o trabalho sujo, como matar os soldados
derrotados que sobraram. Como recompensa, o Quantrill tentou se livrar
dele. Agora o Anderson trabalha sozinho.
– Isso é estranho num exército.
– Estranho? Nem tanto. É verdade que o Quantrill é
coronel, mas o general McCulloch simpatiza com o Anderson. Entre os confederados,
cada oficial faz o que bem entende. Nós viemos a Laredo sob ordens
de McCulloch.
A essa altura, era preciso ser cauteloso. Pantera, fingindo estudar a
paisagem, acentuava sua aparente desatenção e perguntou:
– Vieram fazer o quê?
O velho caiu na armadilha e respondeu sem desconfiar. – Procurar
e capturar os desertores confederados. Geralmente eles não conseguem
atravessar todo o Texas, nem o território indígena. Os dois
que esfolamos tinham conseguido. Foi arriscado pra nós. É
a primeira vez que descemos até Laredo, passando no meio dos casacos
azuis. – Riu, mostrando uma dentadura que devia ter conhecido tempos
melhores. – Certamente McCulloch os queria vivos. Mas vai receber
só os escalpos.
– Aqueles sujeitos eram tão importantes assim?
– Ah, eram. Sabiam demais sobre o Koger, porque viram quando ele
foi transportado numa jaula. Também o viram durante uma crise.
Por isso o Koger degolou os dois enquanto dormiam. Não foi por
ódio, mas por vergonha.
Um dos cavaleiros, talvez por ter escutado a última parte da conversa,
precipitou-se na direção deles, com as plumas de galo esvoaçando
no chapéu. Interrompeu a corrida de seu animal com tanta energia
que arrancou dele um relincho. – Sheperd, seu cérebro derreteu?
Não se fala dessas coisas com um prisioneiro!
O olhar do velho revelou humilhação.
– Você tem razão, Peyton! Desculpe. Às vezes
minha cabeça não funciona direito.
O outro grunhiu. Tinha olhos de porco, malignos.
– Você precisa ser internado num hospício. Também
sofre os efeitos da Lua cheia.
– É verdade. Desculpe. – O velho parecia muito assustado.
Esporeou o cavalo e se afastou, posicionando-se atrás do jovem
Jesse e sua bandeira negra. O homem que ele tinha chamado de Peyton, parcialmente
satisfeito, retomou o trote ao lado de Pantera.
O mexicano entendeu que dali em diante ficariam de olho nele. Mas já
tinha recolhido um discreto punhado de informações, ainda
que para montar o quadro completo seria necessário muito mais.
Enxugou o suor da testa, maldizendo o sol, e olhou firme para a frente.
A única outra possível fonte de informações
era a prostituta, mas no momento ela cavalgava um pouco afastada, e não
havia como abordá-la.
De resto, a cabeça de Pantera ainda se ocupava, não com
o Koger, mas com a traição de Casey e seus justiceiros.
Conhecia Laredo muito bem: uma cidade fodida, dirigida por porcos que
aplicavam a lei arbitrariamente. Mas não conseguia entender por
que, depois de tê-lo tirado com súplicas e ofertas de dinheiro
de sua toca cheia de ídolos e imagens sacras, Casey tinha feito
dele um alvo. Podia ter feito isso antes. Ninguém lamentaria a
morte de um mestiço que todos temiam e ninguém amava.
A história do lobisomem também despertava dúvidas.
Em Laredo, falavam dele havia mais de um mês. A primeira vítima
nos fandangos tinha sido trucidada em 21 de março, três dias
depois da chegada dos soldados da União provenientes do Colorado
que, depois de derrotarem um pequeno contingente de confederados, tinham
partido. O crime, apesar de pavoroso, fora quase ignorado por causa do
caos reinante.
O segundo crime, cuja vítima também era uma prostituta,
aconteceu duas semanas depois. Por ter ocorrido num período mais
tranqüilo, chamou mais a atenção. A moça, uma
graciosa alemãzinha que todos os soldados do Forte McIntosh visitaram
incontáveis vezes, foi literalmente dilacerada e espalhada em pedaços
pelo quarto. Dessa vez, muitos viram o assassino: um homem muito peludo
que corria de quatro, e nenhum projétil conseguia ferir.
Não havia dúvida de o terceiro crime – que vitimou
Carmen, uma robusta mexicana que se dizia ex-cantora, reduzida poucas
horas antes a um pacote de carne picada – ter sido cometido por
Koger. Ele mesmo admitia. Mas como conciliar os fatos com uma expedição
de bushwhackers rápida e ocasional? Segundo as declarações
do velho, era improvável que eles tivessem ficado um mês
inteiro em Laredo. Será que Koger tinha chegado à cidade
antes dos companheiros?
Não, no momento era impossível chegar a alguma conclusão.
Pantera afundou o chapéu todo deformado na cabeça e desabotoou
o sobretudo na barriga. O contato dos dedos com o cinto fez com que lamentasse
a ausência do revólver. Para um homem como ele, aquela ausência
correspondia à perda do único amigo que tinha no mundo. |