1. A cisterna da Aljaferia
O céu sobre Zaragoza estava iluminado por uma infini-dade de
estrelas,
tão densas e brilhantes que Eymerich- não pôde deixar
de erguer a
cabeça. Um arrepio brecou seu encantamento no momento em que
nascia.
Não era noite para perder tempo com contemplações.
Apertou ao redor do
corpo delgado o manto preto que cobria a túnica branca e acelerou
o
passo.
A torre de tijolos que abrigava o tribunal e as prisões da Inquisição
ficava encostada na muralha, tão alta e pode-rosa que sobressaía
dos
torreões semicilíndricos que se erguiam em suas laterais.
Eymerich
dirigiu um rápido sinal de saudação às quatro
sentinelas, sentadas ao
redor de uma fogueira, e entrou com passo nervoso pela porta de acesso.
O cheiro salobro que emanava da cisterna subterrânea fechou sua
garganta. Todos sabiam que durante a peste de quatro anos antes, quando
os homens morriam às pencas por todo o reino de Aragão,
muitos
cadáveres haviam sido jogados nas águas escuras desse
poço gigantesco.
Depois o padre Agustín de Torrelles, o inquisidor-geral, tinha
mandado
recolher os restos deformados dos mortos pela doença e defumar
várias
vezes o corredor estreito que levava à cisterna. Mas um estranho
resquício permanecera, desagradável e penetrante, e trazia
à lembrança
a tragédia daqueles dias.
Eymerich subiu a escadaria que levava às prisões, vigiada
por alguns
guardas, depois seguiu até o segundo andar. Um jovem dominicano
veio ao
seu encontro, solícito.
– Até que enfim, padre Nicolau! O padre Agustín
não pára de perguntar
pelo senhor.
– Onde ele está?
– Quis que o levássemos ao auditório, perto da lareira.
Mas não se
aproxime muito. O infirmarius não tem dúvida. É
a peste negra. Eymerich
encolheu os ombros. – Já sobrevivi uma vez. Leve-me até
ele. O jovem fez
uma leve reverência e afastou a cortina que pendia de uma
porta baixa em forma de ferradura, de estilo mourisco. Ao entrar,
Eymerich não conseguiu ver nada. O grande cômodo, decorado
com relevos
e afrescos, estava iluminado por uma única tocha. Depois viu
um leito
colocado diante de uma lareira onde reluzia uma chama débil.
Com
dificuldade, conseguiu perceber um vulto enrolado em cobertores. Viu
também uma figura pequena e escura ajoelhada ao seu lado. Aproximou-se
com passo involuntariamente hesitante. – Boa noite, padre
Agustín – disse em seguida.
O corpo encoberto não se mexeu. Mas a pessoa ajoelhada levantou
a
cabeça, revelando sob o véu preto tufos de uma cabeleira
branca e um
rosto enrugado de velha. – Não sei se o meu irmão
pode ouvi-lo –
murmurou. – De vez em quando ele readquire a consciência,
mas na maior
parte do tempo agoniza ou parece dormir, como agora. Talvez seja melhor
voltar mais tarde.
– Não, não. – Um rosto amarelado, completamente
calvo, emergiu de
repente dos cobertores. Os olhos, enormes e febris, eram fundos, e a
boca parecia uma cavidade sem dentes nem lábios. – Fui
eu que mandei
chamar o padre Nicolau – disse o doente, com um fio de voz. –
Chegue
perto da lareira para que eu possa vê-lo. Mas não se aproxime
de mim.
Enquanto o velho falava, Eymerich sentiu um cheiro terrível,
como o de
carne decomposta. A idéia do que podia estar oculto sob os cobertores
lhe causou um profundo horror, que extravasou com um violento arrepio.
No entanto, fez o possível para esconder sua repugnância.
– Eu também
fiquei doente, padre Agustín. Há quatro anos. Agora sou
imune à... –
Não se atreveu a pronunciar aquela palavra.
– ... à peste – completou o velho. – Sei, o
senhor sobreviveu à grande
epidemia de 1348. É por isso que mandei chamá-lo. Quantos
anos o senhor
tem?
– Tenho 32.
O padre Agustín suspirou, emitindo um som de pulmões sendo
arranhados.
– Tem pouca idade. No entanto o senhor já é o membro
mais antigo do
tribunal. O padre Rosell foi chamado a Avignon, e todos os outros já
morreram. – Foi sacudido por um leve tremor. – E esta noite
eu também
vou morrer.
Eymerich foi invadido por uma aguda sensação de impaciência.
Tinha a
impressão de ver a doença pairar sobre aquele leito, como
um vapor
infecto. Não suportava corpos frágeis, corroídos
pela doença. Teve
vontade de correr para fora, ao ar livre, mas se esforçou para
manter
um timbre de compaixão na voz. – Assim como eu fui curado,
o senhor
também pode, padre Agustín. Além disso, a epidemia
já acabou há algum
tempo. Hoje os casos de peste são raros e freqüentemente
benignos. O
velho se agitou um pouco. Apertou os olhos. – A peste não
vai
desaparecer, suas causas ainda estão vivas. Quanto a mim, se
o senhor
pudesse ver o que se esconde embaixo destes cobertores, entenderia que
é questão de horas. Já me confessei duas vezes.
Por um instante, Eymerich temeu que o doente quisesse se livrar dos
panos para mostrar suas chagas. Lutou contra o horror que sentiu,
fingindo interessar-se pelo fogo. – Por que a chama está
tão baixa? –
perguntou à mulher em tom severo. – Onde estão os
servos? Inclinou-se
para apanhar o atiçador, mas um movimento brusco do velho o
deteve. – Não, padre Nicolau. O calor forte dificulta minha
respiração.
E, além disso, não adianta nada. Sinto frio por dentro.
– Fechou os
olhos e depois os reabriu lentamente. – Vamos, temos pouco tempo.
Preciso lhe falar sobre coisas importantes. Fique na luz e ouça
com
atenção.
Eymerich se aprumou e se postou ao lado da lareira, com os braços
cruzados.
– Depois que Deus tiver me chamado novamente para junto de si,
o reino
de Aragão ficará sem um inquisidor – prosseguiu
o enfermo, com uma voz
que parecia um sussurro. – Por isso o chamei. O senhor será
o novo
inquisidor-geral.
Eymerich, profundamente surpreso, teve um sobressalto.- – Mas
não é
possível. As disposições do papa Clemente V...
– Sim, eu sei. Estabelecem uma idade mínima de 40 anos.
Mas em todo o
reino, além do padre Rosell, não há um só
dominicano com prática no
Santo Ofício que tenha essa idade. Precisamos evitar que a Inquisição
passe para as mãos dos franciscanos. Confiá-la àqueles
ignorantes seria
como passá-la às mãos do rei, que tem um franciscano
como confessor.
Eymerich concordou. – Entendo. Mas duvido que o papa aprove minha
nomeação.
– Já tomei minhas precauções. Lembra do cavalheiro
francês que se
tornou abade beneditino e foi nosso hóspede por uns tempos?
– O senhor de Grimoard? Acho que ele dirigia a abadia de São
Vítor, em
Marselha.
– Esse mesmo. Agora é núncio, e um dos homens mais
proeminentes em
Avignon. Trocamos cartas. Ele se lembra do senhor. Tomará as
medidas
necessárias junto a Clemente VI.
Eymerich sacudiu a cabeça. – Mesmo se conseguir, o rei
Pedro não vai
aceitar. O direito de patronato lhe permite indicar pessoalmente os
eclesiásticos.
Os cobertores que escondiam os membros do empestado se moveram
vigorosamente. Eymerich afastou-se um pouco, temendo uma crise. O velho
se limitou a extrair dos panos uma mão fina e amarelada. Pôs
o
indicador em riste. – Ouça bem, padre Nicolau – disse,
esforçando-se
para levantar a voz. Seus olhos se contraíram de ódio.
– Não estamos
falando de eclesiásticos, mas de inquisidores. Dos supremos guardiões
da fé, também contra as heresias dos poderosos. Não
há rei, imperador
ou príncipe superior a nós. Nós obedecemos ao papa
e a ninguém mais. –
Teve um acesso de tosse, curto e violentíssimo. – Meu Deus,
estou com a
garganta extremamente seca. Por que está me deixando nervoso?
Eymerich
franziu a testa. – Não era minha intenção,
padre Agustín. Mas
temo realmente que as relações com o rei não serão
fáceis.
– Então é preciso assustá-lo. – Os
músculos labiais do velho pulsaram.
– Mas vamos prosseguir com calma. Ao sair daqui, vá até
o meu quarto.
Encontrará a patente provisória que eu lhe preparei, nomeando-o
meu
sucessor, à espera da confirmação do papa. Encontrará
também três bulas
pontifícias: Ad Abolendam, Ut Inquisitionis e Ad Extirpandam.
Apresente-se amanhã mesmo ao justicia, com a patente e as bulas.
– Ele
não vai me receber. É ainda mais hostil que o rei em relação
a
nós.
– Vai receber, sim, se o senhor souber se impor. Mostre-lhe as
bulas e
fale das suas prerrogativas. Ele não terá como recusar.
Eymerich
balançou a cabeça. – O senhor está muito
confiante, padre
Agustín.
O velho não deu atenção. – Em seguida, vá
até o bispo, mas só por
formalidade, sem nenhuma sujeição de sua parte. Quando
encontrar o rei,
se tiver a oportunidade de falar a sós com ele, faça com
que se lembre
do último colóquio que teve comigo. Explique que eu o
encarreguei de
dar continuidade à investigação.
– Que investigação?
Padre Agustín teve outro acesso de tosse, desta vez tão
longo e
violento que a irmã chegou a se levantar, alarmada. Ele a afastou
com
um sinal. Então prosseguiu, com os olhos cheios de lágrimas:
– São
mesmo os meus últimos instantes. Senhor, dai-me forças
para concluir! –
Fitou Eymerich intensamente. – Padre Nicolau, este castelo é
maldito,
esta terra é maldita. Vencemos os mouros, mas permitimos que
vivessem
entre nós, junto com infiéis de toda espécie. O
próprio rei recorre ao
conselho dos judeus. O senhor percebe que o reino de Aragão ainda
não é
cristão?
Os olhos de Eymerich percorreram a arquitetura mourisca da abóbada
e os
mosaicos intricados velados pela escuridão da sala, cujos tons
vermelhos e dourados apareciam e desapareciam com a dança das
chamas. –
Sofro como o senhor por esta aberração – disse secamente.
– Pedro IV é
tolerante demais.
– Há coisas piores. Entre as mulheres desta cidade... –
O velho
interrompeu a fala com a garganta escancarada. Seus membros começaram
a
tremer, balançando todo o leito. Tentou se dominar, mas sua voz
saiu
como um grito estrangulado. – Deus! Deixai-me concluir! Eu vos
imploro!
A irmã se debruçou sobre o corpo magro e o abraçou,
como se quisesse
interromper o tremor. Olhou para Eymerich: – Padre, eu suplico.
Procure
o médico, os servos, alguém.
– Não! – Com um esforço indescritível,
o velho se desven-cilhou do
abraço. Ao fazer isso, afastou os cobertores, mostrando um corpo
esquelético, escondido apenas por uma camisola ensangüentada.
As axilas
estavam cheias de excrescências escuras, horríveis. Pus
e sangue
escorriam em abundância. – Não! Ele precisa saber!
Não quero... Preciso
contar a ele... Meu Deus. Meu Deus! – A cama exalava um cheiro
de
podridão, de carne decomposta, tão intenso que parecia
palpável.
Eymerich, dominado pelo horror, ia fugir do quarto, mas as palavras
do
velho o forçaram a ficar.
– Ouça! – gritou o padre Agustín, esticando
os braços. – A cisterna...
O que está na cisterna... Foi assim que descobri... As mulheres,
as
mulheres do lago... Queime-as, queime-as! Antes que seja tarde. Antes
que... – O velho desabou subitamente no leito, totalmente sem
forças.
Uma baba escura apareceu em sua boca. Teve um violento estertor, depois
ficou imóvel, com os olhos escancarados.
A irmã começou a soluçar e afundou a cabeça
na beirada do leito.
Eymerich contemplou a cena por alguns instantes, involuntariamente
aliviado pelo fato de aquela agonia ter chegado ao fim. Depois
atravessou o cômodo em passos largos, subitamente ansioso por
respirar
um ar não poluído. No corredor, viu um servo parado num
canto, talvez à
espera de ordens.
– O padre Agustín de Torrelles está morto –
disse secamente. – Onde
estão os cônegos?
– Estão cantando as matinas.
– Vá logo avisá-los. Que parem de cantar e venham
até aqui. Se
precisarem de mim, estarei no último andar, na cela do padre
Agustín.
Mas não quero ser incomodado sem motivo.
O jovem parecia um pouco surpreso com aquele tom autoritário,
que o
nível hierárquico de Eymerich de forma nenhuma justificava.
De todo
modo, fez uma leve reverência e se afastou rapidamente. Eymerich
desfrutou fugazmente do ar úmido do corredor. Segurou as abas
do hábito e subiu dois lances da escada.-
O último andar da torre era uma sala com abóbada em cruz,
sem nenhum
afresco, e uma série de pequenas celas. Os capitéis das
arquitraves das
portas e as decorações do teto tinham sido arrancados
com uma fúria
metódica para apagar os sinais da época em que o edifício
hospedava uma
mes-quita. Sobraram algumas pontas que ainda sobres-saíam e alguns
ornamentos geométricos disformes, dos quais uma demão
de cal havia
arrancado os últimos traços da antiga perfeição.
Um par de assentos com
baús e um gigantesco crucifixo preto constituíam a única
mobília.
Eymerich se dirigiu a uma das celas e empurrou a porta com uma
prudência involuntária. Lá dentro estava escuro.
Voltou para a sala e
apanhou uma das tochas que, mais que iluminar, enegreciam as paredes.
Olhou para o único suporte preso ao muro da cela. Em seguida,
olhou ao
redor.
No cômodo havia uma cama, outro assento com baú e uma escrivaninha
minúscula. Luxos impensáveis para um mosteiro onde os
monges, mesmo o
abade, deviam compartilhar com os coirmãos cada momento da própria
vida, inclusive o descanso. No entanto, os que pertenciam às
ordens
mendicantes, dominicanos e franciscanos, não conheciam tais vínculos.
Além disso, um inquisidor guardava segredos que não podia
compartilhar
com ninguém, e Eymerich, apesar de viver fora do castelo da Aljaferia,
também gozava do privilégio de ter uma cela só
para si, no pequeno
priorado à beira do rio Ebro onde estava alojado. Enfim, ele
nunca
teria se adaptado à divisão do próprio espaço
com outras pessoas. A
recordação do grande dormitório do noviciado era
para ele um pesadelo
recorrente.
Reconheceu logo, sobre a pequena escrivaninha, os papéis que
lhe diziam
respeito. Deu uma rápida olhada. A patente, redigida em latim
e
catalão, o designava para todos os efeitos como sucessor do padre
Agustín, só faltava a chancela papal. Quanto às
bulas, eram cópias
manuscritas dos autos com que os pontífices do século
anterior tinham
definido, estendido e no fim eximido de todo e qualquer controle o
poder dos inquisidores. Mas havia também uma instrução
que o padre
Agustín não tinha mencionado, intitulada Canon Episcopi,
composta de
poucas folhas de pergaminho. Eymerich a enrolou junto com as outras
e
guardou o rolo na pequena sacola que mantinha pendurada ao pescoço.
Depois recolocou a tocha na entrada e desceu as escadas.
A idéia de rever o corpo em putrefação do inquisidor-geral
era
intolerável. Odiava toda forma de imperfeição física,
especialmente a
doença, tanto a dele como a dos outros. Quando a peste o atacou,
quatro
anos antes, ele se fechou na própria cela e recusou qualquer
espécie de
ajuda. Mostrar aos outros as próprias fraquezas o perturbava
mais que a
morte. Encolhido num canto, esperou pelo fim por seis dias,
alimentando-se de pão e água. Quando a febre se foi, saiu
como se nada
tivesse acontecido, ignorando felicita-ções e comentários.
Sabia que
muitos o estimavam, mas poucos o amavam de verdade. E isso não
fazia
parte de suas pretensões.
No segundo andar, o decano da abadia, visivelmente- trans-tornado, foi
até ele. – Padre Nicolau! Que sorte o senhor estar aqui.
Ninguém quer
tocar o cadáver do padre Agustín. Estão com medo
do contágio. Eymerich
encolheu os ombros, aborrecido. – Isso é problema de vocês.
Ameacem, obriguem, sei lá! Tenho mais o que fazer.
A feição do decano endureceu. – Padre Nicolau! Não
esqueça que me deve
obediência.
– Não devo mais – replicou Eymerich com um vago sorriso.
– O padre
Augustín me nomeou seu sucessor. O senhor é que deve obediência
a mim. O
decano, pasmado, tentou argumentar, mas Eymerich já descia
rapidamente as escadas, apertando no colo a barra da túnica branca.
Uma
espécie de nova dignidade parecia ter afinado ainda mais seu
corpo
esguio e reforçado suas feições severas. O decano
sacudiu a cabeça e se
voltou para os companheiros, ansioso por lhes transmitir a novidade.
Ao
chegar ao pavimento térreo, Eymerich parou, indeciso, diante
do
corredor que levava à cisterna. Depois de ouvir as palavras do
moribundo, sentiu-se inclinado a ir até lá e descobrir
o rastro dos
misteriosos achados mencionados pelo padre Agustín. Mas tinha
um temor
irracional de que o ar infectado do segundo andar se espalhasse por
toda a torre, misturando-se ao cheiro podre das águas subterrâneas.
Não, era melhor sair logo ao ar livre.
Ao passar por um dos dois pilares que sustentavam a abóbada,
notou com
o canto dos olhos um movimento rápido às suas costas.
Virou-se
prontamente, a tempo de ver a extremidade de uma roupa escura
desaparecer na galeria que dava acesso à cisterna. Um instante
depois,
a tocha que iluminava a galeria se apagou, transformando a entrada numa
caverna escura.
Eymerich olhou ao redor à procura dos guardas, mas o pátio
estava
deserto. Encostou-se então com precaução à
parede do corredor e
arriscou uma olhada. Não conseguiu ver nada. Percebeu, porém,
a
presença, na outra extremidade da passagem, de alguém
que espiava seus
movimentos na penumbra. Teve a impressão de distinguir a fugaz
brancura
de um rosto extremamente pálido, de traços incertos, logo
engolida pela
escuridão. Um intenso arrepio, que não conseguiu dominar,
percorreu sua
espinha.
– Quem está aí? – gritou, a fim de vencer
a própria perturbação. Ninguém
respondeu. Ouviu, porém, muito distante, uma respiração
ruidosa, como se a pessoa escondida nas sombras tivesse segurado o
fôlego até aquele momento.
Eymerich tinha a convicção de não temer nada. Mas
aque-le leve ruído
conseguira despertar nele um medo inespera-do, que por alguns instantes
alterara o ritmo de seus bati-men-tos cardíacos. Encaminhou-se
rapidamente para a saída, tentando se recompor. Só voltou
ao normal
depois de sair e ver os guardas agachados perto da fogueira.
– Capitão! – disse ao oficial do grupo. – Acho
que alguém se escondeu
no corredor da cisterna. O senhor pode dar uma olhada?
– Com certeza, padre – respondeu o militar, apanhando a
espada e
levantando-se.
Quando entraram no pátio, a luz tinha voltado à galeria.
O oficial
avançou, enquanto Eymerich esperava na soleira, novamente seguro
de si,
mas também dolorosamente ciente do medo que sentira pouco antes.
Depois
de alguns instantes, o oficial reapareceu. – Não tem ninguém,
padre, mas achei isto. – Mostrou a Eymerich um pedaço de
pano verde. –
Muito estranho.
Eymerich examinou cuidadosamente o trapo. – Parece um estojo,
ou então
um capuz. Um capuz de recém-nascido. – Franziu a testa.
– O senhor
ouviu falar de objetos encontrados na cisterna ultimamente?
– Ultimamente? Não. Mas veja, eu geralmente vigio os aposentos
reais.
Esta noite fui destacado pela primeira vez para a torre.
– Obrigado, capitão. Laudetur Jesus Christus.
– Semper laudetur, padre.
Eymerich se enrolou no manto preto que cobria a túnica e baixou
o capuz
de forro branco sobre a testa. Através de um arco, lançou
um olhar para
o prédio gótico ocupado pela corte, que sobressaía
do corpo central da
antiga mesquita. Pouco tempo antes Pedro IV transferira seus aposentos
pa-ra a construção de estilo mourisco. Portanto a conversão
para o
gótico de todo o conjunto estava longe de ser concluída.
Sintoma
indireto de uma sociedade em que raças, culturas e religiões
se
sobrepunham sem se integrar, para grande pesar dos inquisidores e de
quem almejava a supremacia cristã.
O imenso portão de saída era vigiado por uma multidão
de soldados.
Eymerich se identificou, depois colocou o pé no gigantesco alicerce
de
pedra que sustentava a Aljaferia. As matinas já tinham terminado
havia
um bom tempo, e a madrugada era úmida e silenciosa. Só
a limpidez do
céu preconizava o calor que reinaria no dia que nascia.
Andando na direção do Ebro, ao longo de uma rua protegida
dos ladrões e
reservada aos homens da corte, Eymerich travava uma luta entre o
orgulho e a preocupação. Seu caráter duro, esquivo
e pouco inclinado ao
exibicionismo tinha feito com que nunca se interessasse por cargo
nenhum. Preferia exercer uma influência secreta e anônima,
apesar de
ficar um tanto ressentido quando seus méritos não eram
reconhecidos ou
eram atribuídos a outros. Por outro lado, exercer o poder não
lhe
desagradava. E o poder de um inquisidor-geral, fazia um século,
era
superior ao de qualquer prelado, inclusive cardeais.
Seu medo era o de ficar muito exposto na intricada situa-ção
em que
vivia, naquele outono de 1352, o pequeno mas poderoso reino de Aragão.
O rei Pedro IV, conhecido como o Cerimonioso, por causa de sua paixão
por rituais complicados, tolerava cada vez menos os limites impostos
a
seu poder por disposições aragonesas. Apesar de ser o
único soberano
naquela terra, era controlado por um magistrado na prática superior
a
ele, chamado de justicia de corte, ao qual tinha se submetido
oficialmente durante a coroação. Era o justicia quem tutelava
os
direitos da nobreza, consolidada na Unión entre Zaragoza e as
principais cidades e garantida por uma detalhadíssima legislação,
fundamentada nos fueros e no privilegio general de 1283.
Em 1348, ano decisivo na história do reino, Pedro IV derrotou
os nobres
e queimou o protocolo da Unión. No entan-to- ainda não
tinha conseguido
se livrar do justicia nem revo-gar os fueros. Pelo contrário,
numa
cerimônia bastante humilhante para um homem tão orgulhoso,
tivera que
jurar obediência ao magistrado diante das cortes, o órgão
consultor que
reunia representantes das ordens militares, cavaleiros, eclesiásticos,
richshomens e a burguesia urbana. A intranqüilidade do soberano,
já
aguçada por esse desgosto, se agravou quando o surto de peste
lhe tirou
a esposa, a filha Maria e uma sobrinha.
Em 1352, uma frágil serenidade parecia ter pousado sobre o reino
de
Aragão e os reinos subalternos que o compunham: Catalunha, Sicília
e
Valência. Mas a hostilidade da nobreza em relação
a Pedro IV persistia,
e era abertamente retribuída. O padre Agustín de Torrelles,
proveniente
de uma das mais ilustres famílias aragonesas, sofrera as conseqüências.
Os dominicanos, apesar de sempre terem evitado de tomar partido e
gozado por muito tempo dos favores da corte, tinham caído em
desgraça,
e com eles a Inquisição que administravam. Além
disso, ao abandonar a
pobreza, tinham perdido muito de seu prestígio entre o povo,
suscetível
ao apelo do rigor pregado pelos begardos.2 Alguns meses antes, o rei
Pedro escolhera um confessor franciscano, iniciando uma pressão
sobre
Avignon para que o Santo Ofício fosse confiado aos franciscanos,
mas
sem obter êxito até aquele momento.
A preocupação de Eymerich provinha do fato de herdar o
cargo do padre
Agustín exatamente quando o crédito da Inquisição
estava no nível mais
baixo e o avanço franciscano crescia assustadoramente. Isso sem
considerar que os conselheiros mais ligados ao soberano eram judeus
e
detestavam com todas as forças a Inquisição dos
dominicanos. Mas
Eymerich não temia apenas essas circunstâncias extremamente
adversas à sua nomeação. No fundo, e por sua própria
índole, detestava
ter que aparecer, tratar com as pessoas, falar em público. Seus
únicos
momentos de felicidade eram quando, fechado em sua cela de paredes
alvas e obsessivamente limpa, podia saborear sonhos de glória
que, na
realidade, eram inibidos por sua aversão à vida social.
Ou ainda
quando, nos bastidores, conseguia manobrar circunstâncias e personagens
e até conduzi-los a satisfazer seus intricados desígnios.
A serenidade da noite, fria e tranqüila, não conseguiu atenuar
suas
preocupações. Chegou ao pequeno priorado onde se hospedava
– uma
construção branca, simples e quadrangular, encostada ao
grande torreão
mourisco chamado “La Zudra” – num estado de ânimo
incerto e cheio de
cansaço. Pulou sobre alguns pedintes que dormiam diante da fachada,
enrolados em cobertores esfarrapados, e puxou a cordinha que pendia
ao
lado da entrada, fazendo soar uma sineta.
– O padre Agustín faleceu – disse ao padre guardião
que veio abrir o
portão, sonolento àquela hora. – Peste, obviamente.
– Oh, meu Deus! Devo acordar os outros?
– Não é preciso. Já tem gente cuidando dele.
– Pegou a vela acesa que o
frade lhe oferecia e entrou no priorado.
Atravessou, quase cambaleante, o minúsculo pátio, entrou
em sua cela e
se jogou sobre o estrado de madeira que lhe servia de cama, sem tirar
nem a túnica nem o manto. Lo-go depois, dormia em sono agitado.
Era a
primeira vez em muitos anos que deixava de rezar antes de deitar.
Acordou pouco antes da terceira hora, muito mais tarde que de costume.
O prior, um velhinho que vivia pelas ruas passando sermões truculentos
aos pecadores, permitia-lhe tais abusos, tanto porque Eymerich era o
único hóspede da casa que pertencia à Inquisição
como porque seus
periódicos acessos de fúria, apesar de controlados, com
certa
freqüência eram de gelar o sangue. Além disso, a presença
de Eymerich
no priorado, pequena filial da matriz dominicana de Toulouse, era
limitada às horas noturnas, e nos raros momentos de comunhão
com os
coirmãos sua insociabilidade era proverbial.
Quando saiu ao pátio, um sol intenso já superaquecia os
telhados de
madeira, palha e ardósia de Zaragoza. Dois servos que conversavam
num
canto lhe dirigiram um leve sinal de saudação. Respondeu
distraidamente
e foi até a guarita.
– Onde está o prior? – perguntou ao padre guardião.
– Foi à Aljaferia. A morte do padre Agustín o deixou
profundamente
abalado. O senhor já fez o desjejum?
Eymerich balançou a cabeça e passou pelo pequeno portão
de ferro
batido. Os tijolos vermelhos das casas pareciam absorver com volúpia
o
calor que a noite, muito severa, lhes tinha negado. Ao redor da
imponente Zudra era dia de feira. Um intenso perfume de cravos, ao qual
se misturava o aroma das especiarias e outros odores menos agradáveis,
enchia o ar. Uma multidão colorida e ruidosa rodeava as bancas
e as
barracas montadas pelos camponeses, em sua maioria mouros, e pisava
no
denso fluido que escorria da torre até o Ebro, arrastando folhas
de
hortaliças e todo tipo de sujeira. Barbas judaicas, turbantes
muçulmanos e sayas cristãs se fundiam numa só torrente
humana,
vociferante em pelo menos três línguas e um número
muito maior de
dialetos. Principalmente viam-se por todo o lugar mendigos de todas
as
idades e sexos, que cambaleavam em grupos ou se sentavam na beira da
rua, ao lado do lodaçal, cantando, esmolando ou exibindo chagas
medonhas.
Eymerich tinha horror às multidões. Levantou o capuz,
como se pudesse
se proteger da presença dos outros, e entrou por uma viela asfixiante
e
malcheirosa, em meio a barracos de madeira. Muitas janelas lacradas
revelavam que a morte negra tinha feito muitas vítimas no bairro,
e a
precária tranqüilidade depois da epidemia ainda não
permitira sua total
recuperação. Viu também, no fim da rua, três
mulheres vestidas com a
tradicional blusa de seda bordada à mourisca, escondendo o rosto
atrás
de pequenas máscaras de linho branco. Uma lembrança da
tragédia de
quatro anos antes, quando até o ar era considerado letal. Quando
ele
passou ao lado das desconhecidas, uma de-las, contrariando
todas as regras de boa educação, to-cou-lhe levemente
o ombro.
Eymerich, que não tolerava nenhuma espécie de contato,
teve um
sobressalto involuntário. Mas, quando dirigiu seu olhar aborrecido
para
as mulheres, viu que elas já estavam longe, curvadas pelo riso.
Uma
delas se virou e indicou vagamente o céu. Em seguida, desapareceu
junto
com as outras na esquina, deixando no ar o ruído de uma risadinha.
Eymerich encolheu os ombros e retomou seu caminho. Depois,
distraidamente, olhou para o alto, na direção indicada
pela mulher. O
que viu o deixou sem fôlego.
Ao longe, acima das torres da Aljaferia, aparecia uma assustadora e
gigantesca figura de mulher. Era feita de nuvens e de luz, mas bastante
nítida. Um rosto nobre e severo, uma figura delgada envolvida
numa
túnica branca, uma mão estendida que segurava um instrumento
indistinguível. Durou apenas um instante. Logo a figura se desfez
em
partículas atmosféricas.
Eymerich, com o coração na garganta, piscou várias
vezes. Em poucos
instantes, readquiriu o pleno domínio de si, apenas levemente
obscurecido por uma indescritível sen-sação de
desconforto. Agora o céu
estava límpido, e o único vislumbre no ar era o dos reflexos
do rio nas
rosáceas e nas cruzes metálicas das igrejas. Baixou ainda
mais o capuz
sobre o rosto e retomou o seu caminho.
Tinha certeza de que não havia sonhado. Aquele rosto altivo,
contornado
de cachos pretos, ainda se desenhava real demais em sua mente. Não,
o
fenômeno não podia ser posto em dúvida. Teria sido
uma aparição da
Virgem do Pilar, cuja festa seria comemorada na semana seguinte?
Qualquer habitante de Zaragoza, cidade devotadíssima a Nossa
Senhora,
teria pensado assim. Mas a mente de Eymerich, tão lógica
que às vezes
beirava a desumanidade, recusava instintivamente uma explicação
do
gênero.
Tinha visto seus coirmãos desfalecerem e jurarem ter visto santos
rodeados de uma esfera de luz, ou Jesus Cristo em pessoa. Outros eram
atormentados toda noite por aparições diabólicas,
e exatamente por isso
se consolidara entre os dominicanos o hábito de cantar a salve-rainha
depois das completas.3 Mas até aquele momento havia sido fácil
para ele
atribuir tais alucinações a um estilo de vida excessivamente
rigoroso,
ou a fantasias demasiadamente voltadas ao misticismo.
Mas a mulher que ele tinha visto não era nem a Virgem Maria nem
uma
criatura diabólica. E também não eram as jovens
que lhe tinham
prenunciado a aparição. De repente, sentiu a cidade estranha,
inquietante. Lembrou que o pa-dre Agustín o tinha alertado sobre
as
mulheres de Zaragoza. Eymerich se perguntou se aquele aviso não
teria
dado forma à sua visão. Uma rápida oração,
enunciada mentalmente, fez
com que retomasse o contato com a realidade. Mas aquele vulto... Chegou
à viela secundária, vigiada por grupos de solda-dos, que
levava
à Aljaferia. Andou em rápidas passadas, imerso em seus
pensamentos.
Quando avistou a base de pe-dra em que se assentava o castelo, uma
pequena multidão aglomerada diante do portão principal
atraiu a sua
atenção. Reconheceu o seu prior, o regente cantor e alguns
cavalheiros
da corte, misturados ao denso grupo dos servidores de alta categoria
chamados de criados. De início, pensou que estivessem reunidos
para as
exéquias do padre Agustín. Somente quando estava a poucos
passos deles
percebeu que estavam à sua espera.
– Padre Nicolau! – O prior veio ao seu encontro de braços
abertos, com
um sorriso que esticava as marcas de seu rosto enrugado. – É
verdade o
que o decano disse?
– O que ele disse? – perguntou Eymerich, na defensiva.
– Que o nosso saudoso padre de Torrelles o indicou como seu sucessor.
Que o senhor é o novo inquisidor-geral do reino!-
– É verdade – limitou-se a responder Eymerich. –
Ele deixou um
testamento.
O velho frade ergueu as mãos, dirigindo-se aos presentes. –
É mesmo
verdade! Que honra para o meu priorado! Nicolau Eymerich é o
novo
inquisidor de Aragão!
O coro de felicitações que se elevou do grupo deixou Eymerich
extremamente aborrecido. Abriu caminho entre os presentes distribuindo
sorrisinhos forçados e respondendo às congratulações
com frases feitas.
Ao se aproximar do portal, reconheceu o capitão dos guardas que
na
madrugada tinha enviado para explorar a galeria da cisterna. Estava
fazendo alguns sinais.
Livrou-se de um criado particularmente amável e se aproximou
do
oficial. – O que foi, capitão?
– Esta manhã voltei para a cisterna – respondeu afobado
o militar. –
Encontrei o menino.
– Que menino?
– Lembra de ontem? A touquinha?
– Lembro. Então?
– Na beira do poço, havia o corpo de um menino. Com a garganta
cortada.
Eymerich estremeceu. – Mas o que está dizendo? O oficial
o olhou nos
olhos. – E não é tudo. Não é um corpo
normal. O
senhor não vai acreditar em seus olhos. – Expeliu uma respiração
profunda. – Meu Deus, nem sei como descrevê-lo.
O inquisidor franziu as sobrancelhas. – Abra caminho para eu passar.